Impressões do antes (ou, eu irei, ele irá...eles irão). No princípio era o verbo, a verba, e depois o destino. Para além de assumir a tradução portuguesa homónima do verbo propício à viagem, quando o Irão se torna destino e não verbo conjugado no futuro do indicativo, é pelo fascínio que ele provoca que se decide roer caminho até lá! Por ser um país embriagado em costumes alimentados pela sua língua - o farsi, pela sua história, por aquela religião - o Zoroastrismo, pelo seu povo, e até pela sua polícia, a dos costumes. Durante trinta dias vestimos essa cultura com vontade de saber o que é ter aquela visão, esta audição, muito paladar, algum tato e um olfato persa, no masculino e no feminino. Fazemos as malas do estrito necessário, dobrando a novidade e o inesperado para deixar espaço para o que trouxermos de lá.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Surpresas improvisadas


Encontrou-se o atleta Pahlavan, durante um treino de Zurkhaneh em Esfahan, a 8 de outubro 2012.


Ali Reza Farhang, lutador de olhos cristalinos à noite, estudante em engenharia civil de dia, atraiu a nossa atenção pela semelhança física com António Variações. No final do treino, quando já estávamos à espera que acabasse a frenética sessão fotográfica asiática que o rodeava, perguntámos timidamente se podíamos tirar uma fotografia com ele. Aceitou com cara de quem pouco consente, aborrecido do interminável flash turístico. Entregámos a máquina a outro Pahlavan, pouco entendedor em como usar um instrumento fotográfico. Resignados, após algumas tentativas sem sucesso, agradecemos e despedimo-nos do Pahlavan mais parecido com uma figura de peso da música portuguesa. Armado de todos os mecanismos da espontaneidade, o nosso encontro grã ventura levou-nos a jantar, com ele e um amigo, Mojtaba Kamali. Com a melada flor dos seus vinte cinco anos, brotava neles o sentimento da descoberta do que vem de fora, de que aquela noite por estarmos juntos já era uma aventura. You are our guests, repetiam eles, depois de nos terem oferecido o jantar. 

Com um inglês repreensível que compensava com um jeito descontraído, "acamaradamos" noite fora pela cidade mais turística do Irão. O seu desejo de viajar fora das fronteiras do mundo persa era mundo, revelando que a sua concretização não tem forma, nem nome. Riam com ironia da fortuna e da sua roda, revelando as suas limitações financeiras para viajar: Yeah, sure we can travel… to Shiraz, to Tehran, to Yazd!

Se Alireza parecia aquele senhor da música que fez do nome Variações um propósito para os seus variados estilos musicais, foi o amigo Mojtaba que nos mergulhou em vozes vocacionadas a elogiar a música tradicional persa. Se no carro namoravam música pop Do you like Rihanna? I love Rihanna!! Shakira, Jennifer Lopez, Gipsy Kings, do you like?, foi um momento de improviso musical que abriu o nosso passeio nocturno. No instante em que Mojtaba começou a cantar, no Peugeot 206 que nos levava ao centro da cidade, as vibrações persas esmagaram as referências ocidentais prévias. Melódica e poderosa, a sua voz mergulhou-nos por segundos em plena atmosfera persa. 

Depois de uma noite de luta, de um encontro inesperado e de cordas vocais memoráveis despedimo-nos à porta do nosso hotel de mais um dos perigos do Irão.

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